Este mês, o Mundo Diplomático dedica dois artigos ao Bangladesh. Se puderem, dêem uma vista de olhos.
Introdução
O Bangladesh é um pequeno país (uma vez e meia Portugal) extremamente populoso (150 milhões de habitantes). A capital é Dhaka e conseguiu a independência do Paquistão em 70-71, através duma guerra mortífera.
Indústria têxtil
A industria têxtil, mais do que outra qualquer indústria, procura mão de obra barata. E digo, mais do que outra qualquer, porque em outras indústrias, mão de obra qualificada ou acesso a matérias primas ou energia têm um papel algo importante.
Ora, o Bangladesh é barato. Com um ordenado de base "ultra leve" de 17€ por mês as multinacionais (tais como H&M, Tommy Hilfiger, Zara, Carrefour...) não desgostam do Bangladesh. A título de exemplo, o ordenado base no Vietname é 75€ e na Índia 112€.
A juntar a isto, vêm as más condições do costume, horas extraordinárias "voluntárias" não pagas, trabalho infantil, sindicatos controlados, não têm descanso semanal. Perante tais condições, os trabalhadores revoltam-se. Por exemplo, em Maio passado 50 mil operários manifestaram-se para pedir mais direitos e melhores ordenados, e foram reprimidos pelas forças armadas resultando em dezenas de mortos.
O que fazer, quando o capital tem a faca e o queijo? As multinacionais não terão pejo nenhum em deslocalizar-se e empurrar centenas de milhares para o desemprego.
40 anos depois, finalmente um tribunal de guerra
Em Janeiro, a primeira ministra lançou uma grande ofensiva contra o poder religioso. Primeiro risca da constituição as referências ao Islão e depois cria um tribunal de guerra para julgar os crimes de guerra perpetuados durante a ocupação paquistanesa em 70-71.
Aquando da guerra de independência, que nas estimativas mais negras poderá ter custado a vida a 3 milhões de pessoas, os fundamentalistas islâmicos eram contra a independência e por isso apoiaram a ocupação.
É saudável que o país finalmente julgue quem cometeu tais hediondos crimes. Mas a modo como o faz é questionável. Começar a prender os dirigentes dos partidos da oposição, nomeadamente o Jamaat-e-Islami, acusá-los inicialmente de crimes secundários (que nada têm a ver com os anos 70-71) para depois acusá-los de crimes de guerra. Proibir os livros do movimento em questão...
Começa a parecer uma caça cega às bruxas.Curiosamente, lembra certos ditadores magrebinos que perseguiam a oposição tratando-os por terroristas islâmicos e acusando-os de ter ligações com a Al-Qaeda.
Será que tudo isto é apenas o Bangladesh na sua senda de justiça ou é apenas uma deriva autoritária de destruição da oposição pela justiça e difamação?